Nem depois da morte?


Passavam dez minutos das duas da manhã, estava ela na cama sem conseguir adormecer, sequer fechar os olhos conseguia, algo dentro dela não estava bem, mas nem ela, nem ninguém sabiam o quê. Levantou-se muito lentamente, ficou sentada beira da cama, olhava em seu redor como se fosse encontrar algo diferente, repentinamente foi à janela, ficou lá parada a ver a chuva cair sobre a sua mão, chorou, chorou sem motivo concreto, e eu ao observá-la não entendia o que de mau se passava e nem perguntei nada, calei-me e continuei a ver a reacção dela. Já eram duas e meia da manhã e ela pegou num casaco, calçou-se e fechou a porta como se precisasse de estar sozinha. Nem uma palavra se ouvia dela, apenas se ouvia soluços, uma angústia; encontrei-a na praia, sentada à beira mar, com um caderno e uma caneta na mão, estava ela toda molhada, as páginas do caderno todas borradas, e a caneta caída sobre a areia, como se não tivesse funcionalidade.
Ainda me lembro do rosto dela, da maneira como ela olhava o mar, da maneira como ela olhava aquela praia, e sentia que algo de errado se passava. Talvez saudades ? Nem tentei chegar a uma conclusão, ela era uma rapariga muito imprevisível, uma rapariga difícil de chorar, uma rapariga constantemente alegre, e só me perguntava o porquê de ela naquela noite estar ali daquela maneira.
            Passado uns minutos só a vi deitar o caderno junto à caneta, pegar naquela areia áspera e molhada para as mãos, e deixá-la cair aos poucos, como se o tempo estivesse a ser contado por aquela areia. Ao deixar cair o ultimo grau de areia que restava na sua mão, ouviu-se um grande suspiro, como se ela estivesse a esperança que algo mudasse ao cair aquele ultimo grau de areia. Então, ela levantou-se, despiu-se, e eu sem saber que pensar, olhava sempre fixamente para as atitudes dela, ela pegou na caneta e escreveu no caderno uma frase que até hoje está marcada na minha memória e na memória dela também, tenho a certeza. “Se a distancia era um problema tão grande na nossa relação, preferi ficar longe de ti sem vida, do que com vida, pois assim tenho a certeza que te sentirás mais capaz de entender que o amor supera tudo” . Sim, admito que ao vê-la escrever aquilo, um grande medo entrou em mim, sabia que ela iria fazer uma asneira. Ela pousou o caderno sobre a areia molhada, num sítio especifico, mas nunca entendi porquê, então, ela correu, deu um grito e disse “morri, mas se sentires uma presença a teu lado sou eu a amar-te, onde quer que eu esteja”. Uma lágrima me caiu, corri atrás dela para tentar fazer com que ela voltasse atrás e não morresse ali, sem esperança de sobreviver, mas não, não deu tempo, quando cheguei perto do mar, já ela estava muito longe da costa, sem respiração talvez, já nem a via, só via as ondas a rebentar cada vez com mais força, só se via a espuma das ondas, gritei o nome dela vezes sem conta, e nenhuma resposta obtive. Não sabia que fazer, não sabia mesmo. Achei parva a atitude dela, mas na verdade, não era ninguém para criticar, nem a conhecia, nem sabia a história dela, eu apenas era o narrador deste episódio de vida. Morreu. Ela morreu. Era só isso que me saia. Então, vê-se um rapaz entrar na praia, a correr, como se já soubesse o que tinha acontecido, olhou para mim e perguntou “teve aqui uma rapariga?” , e eu disse: “sim, acabou de se matar e deixou um caderno com uma frase escrita com a razão pela qual se matou” . Ele nem respondeu, pegou no caderno, leu a frase, parou. Chorou. Gritou. E arrependido de não ter acreditado no amor, arrependido de não ter sido capaz de abdicar dos seus medos para amar, escreveu naquele caderno : “Não, não vamos ficar separados. Vou ter contigo e juntos seremos felizes, com vida ou sem vida, o nosso amor irá superar tudo. Até já”. Ao vê-lo escrever aquilo, fiquei sem reacção, tentei impedi-lo de fazer tal coisa, mas ele, ele só dizia que a amava de mais para ficar longe dela. Entrou no mar e antes de morrer disse bem alto : “ Escreve toda esse nossa história e evita que cometem o mesmo erro que eu. Ter medo da distancia enquanto que o amor vence tudo!”.
            E sim, foi assim que acabou, morreram os dois juntos, e não ficaram juntos na vida, mas na morte ficarão para sempre!

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