A História de Matilde

Olá, chamo-me Matilde, tenho dezoito anos, estou no décimo segundo ano na área de artes, porque adoro desenhar, encenar, cantar e dançar! É algo que me faz feliz, que me faz esquecer todos aqueles problemas, que pronto.. são normais na minha idade, acho eu. Até tenho medo de dizer que são normais, porque cada vez que digo isso há sempre alguém que me critica e que me diz que o normal é ser feliz e respeitada, mas pelo menos acho que a ti, a uma simples folha de papel, posso dizer isso porque não me vais criticar.. por isso estou aqui, a escrever, a ouvir uma música que nem conheço, a sentir o salgado das minhas lágrimas que vão parar aos meus lábios, a limpar o rímel que está espalhado pelo meu rosto, o baton borrado, mas acima de tudo, estou aqui a tentar assegurar o meu coração, porque ele está tão destruído e partido em tantos bocadinhos que até tenho medo que um bocadinho dele me saia numa lágrima minha. Bem, a minha história é um pouco constrangedora para mim, sinto vergonha de admitir tudo o que sinto, tudo o que passo e tudo aquilo que sei que ainda vou passar. Quando nasci minha mãe teve uma depressão, pois meu pai adoeceu e ela estava completamente arrasada com tudo, tinha que cuidar de mim sozinha e tinha medo de ficar sem ele, sem o homem das nossas vidas, e isso fazia com que ela não me fosse a mãe que desejava ser, era violenta, impaciente, e um pouco bruta nas palavras, não só comigo, mas com toda a gente, incluindo com o meu pai.. Meu pai, que estava doente, ao ver toda essa situação revoltou-se, ficou revoltado por ver minha mãe a tratar mal a sua filha, a sua tão desejada filha, e isso fez com que ele se revoltasse, com que ele se tornasse em alguém que eu sei que não era.. ele via-se doente, sem poder fazer nada, sem poder cuidar e tratar de mim, e então decidiu tratar mal a minha mãe da mesma maneira que ele tratava toda a gente, com o objetivo de a fazer entender que não era assim que as coisas iam ficar bem, não era assim que meu pai ia ficar curado, nem que eu ia crescer, nem que ela ia ficar boa! Foram dias, semanas, meses assim, debaixo de gritos, de pancadas, de palavras frias e obscuras, de sentimentos virados ao contrário, do desejo de acabar, ou até mesmo da vontade de começar de novo. Lembro-me como se fosse hoje todos os gritos que ouvia quando estava na cama a tentar adormecer, sozinha, porque nunca tive uma mãe nem um pai que me fizessem adormecer, nem que contassem histórias, muito menos que cantassem músicas engraçadas! Cresci sozinha, aprendi a fazer tudo sozinha, descobri o mundo sozinha, aprendi a sorrir sozinha, aprendi a amar sozinha, aprendi tudo.. mas sozinha! eu estou sozinha, sempre estive, e é assim que estou bem, porque ao longo do tempo tenho vindo a perceber que por vezes é melhor conversar mos connosco mesmos, assim não há criticas, não há palavras indesejadas, muito menos actos incontroláveis.. Mas esta época da minha vida passou, tudo melhorou e voltou ao que era normal nas outras pessoas que conhecia, meu pai ficou bom, minha mãe tomou consciência de que o que estava a fazer não era o correcto e mudou de atitude, começou a me dar tudo aquilo que uma mãe dá a um filho, apesar de eu não aceitar todos aqueles carinhos e mimos como uma criança normal, porque cresci num ambiente onde aquilo não existia, e habituei-me assim.. O tempo passou, eu já estava grande, já tinha dezasseis anos quando comecei a me socializar mais e a deixar os problemas pelos quais tinha passado para trás, porque não valia a pena acartar todos aqueles momentos, porque assim nunca iria conseguir ser feliz e seguir em frente, então apaguei aquilo tudo e encontrei uma pessoa, chamava-se Afonso, estava na turma da minha melhor amiga, e ele era querido, fazia-me lembrar o meu pai, que ,infelizmente, já não estava presente na minha vida, já tinha falecido, e fui o conhecendo melhor, saímos depois da escola, íamos tomar café juntos, ele ia me buscar a casa de carro para me levar à escola e foi assim.. foi assim que me apaixonei, foi assim que encontrei o homem da minha vida, o homem que me fazia lembrar aquele que era o grande homem da minha vida, meu pai! Começamos a namorar no dia dois de janeiro de 2011, quando ele me foi buscar à escola e levou-me para um lindo jardim, onde tinha um manta no chão, junto a uma linda e grande árvore, sentei-me, ele sentou-se, olhou para mim e disse "és linda, sabias?", e eu sem saber o que responder sorri, e foi aí que ele pegou na minha mão, passou a sua outra mão no meu cabelo e disse "Olha para mim", e eu simplesmente olhei mas nem sei bem o que vi, porque perdi-me nas palavras dele, perdi-me naquele "queres ser a minha metade? aceitar namorar comigo?", perdi-me.. e ao contar isso agora estou a me sentir perdida outra vez, não nas suas palavras, mas sim nele, na pessoa que ele era, no quanto ele me fascinava e amava. Um "SIM" saiu da minha boca, e foi assim que tudo começou, foi assim o primeiro beijo, o primeiro amo-te, o primeiro sorriso juntos, a primeira foto, o primeiro tudo.. Ainda hoje estamos a namorar, mas as coisas mudaram e muito, ele mudou, e eu, de certo modo, mudei por ele, hoje sou uma pessoa que não seria sem ele, mas essa mudança que ele me fez ter estragou muita coisa, estragou as minhas amizades, estragou o meu coração, estragou o meu sorriso e a minha felicidade, porque hoje a única pessoa que tenho é ele, fui obrigada a me afastar de todas as outras pessoas, fui obrigada a mudar de numero de telemóvel, de estilo de roupa, de falar com rapazes, de sair com amigas, de praticar dança e desportos, fui obrigada a parar de fazer aquilo que mais gostava, menos de estar com ele, porque isso eu continuo a fazer, sou obrigada a tal. Sou submissa a ele, como um filho é submisso a um pai, tenho que o respeitar e aceitar as regras dele, porque caso não respeite acabo sempre por ser agredida, insultada e humilhada, acabo sempre por ficar sozinha no meu quarto a chorar, a pensar e sem nunca chegar a uma conclusão. Tudo isso já vem de algum tempo, e cada vez que ele grita comigo, ou me bate, faz me lembrar aquilo que eu à uns tempos tentei apagar da minha vida, mas pelos vistos a minha vida está destinada a isso, à submissão, à agressão, à dor, à mágoa, à desilusão! Ele não tem medo nem vergonha daquilo que os outros acham, ele não tem vergonha de admitir que sou agredida por ele, porque ele acha que tem razão naquilo que faz e que sou eu que erro, sempre, coisa que não é verdade, porque eu não faço nada que queira, faço tudo o que ele quer e não sei o que ele vê de errado naquilo que faço, para ele até estudar é um motivo de agressão! Vim aqui desabafar e escrever numa simples folha de papel aquilo que sinto porque não tenho ninguém com quem falar, com quem desabafar, e espero que um dia possa sair dessa situação e viver a minha vida sem este tipo de comportamentos! Refugio-me em mim própria, tento falar comigo mas já ninguém me responde, eu própria já não consigo arranjar respostas para as minhas perguntas, nem soluções para os meus problemas, sem ser a morte, acho que a morte é a única saída para este meu problema, porque a verdade é que amo o Afonso e não consigo ficar sem ele, muito menos dizê-lo aquilo que sinto, aquilo que aqui estou a escrever, porque tenho medo.. tenho medo dele! Por isso se alguém dia vires que mais ninguém pegou em ti para ler o que aqui está escrito é porque eu já não estou cá, é porque eu decidi melhorar a minha vida e ir para um sitio melhor, para ao pé do homem da minha vida, do meu pai, que tenho a certeza que está lá à minha espera! Mas espero, do fundo do coração, que nenhuma menina passe por aquilo que eu passei e estou a passar, e caso saibas que há meninas a sofrer por isso, voa, voa para junto delas de modo a que elas lêem a minha história e não cometem a mesma loucura que eu! Faz isso por mim, cuida delas!

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