Eu pensava que tinha tempo

O relógio fazia aquele sistemático som do passar dos minutos e eu já nem dava por isso. É como respirar e não ter noção que o estou a fazer. Eu não via que horas eram, nem quantos minutos tinham passado desde o teu último sorriso, muito menos quanto tempo tinha passado desde a minha última palavra. É difícil contar os segundos, especialmente quando não dás por eles a passar. Eu pensava que, uma vez na vida, tinha tempo. Tempo suficiente para te viver e te morrer, se fosse possível. Eu não fazia hoje para poder fazer amanhã. Tempo não faltava – pensava eu. Era o nosso mais pequeno problema. O meu mais pequeno problema, afinal.
Amanhã eu queria matar saudades do teu perfume. Hoje eu queria ficar aqui, como agora estou. Amanhã podíamos ir à praia que me querias levar, mas hoje não, por favor. Tínhamos tanto tempo, para quê hoje? – pensava eu. Não via qualquer motivo para faltar segundos ou minutos para um beijo, afinal um abraço dura segundos, poucos. Não ocupa tempo nenhum. E um beijo dura uns minutos que, amanhã, não serão nada. Era o que menos faltava, tempo. – pensava eu. Pensava que tinha tudo em mãos, tudo planeado da melhor maneira para dar certo, tudo contado, tudo pronto. Eu tinha a certeza que tínhamos todo o tempo de mundo para nós. Que eu tinha todo o tempo do mundo para ti. Tempo suficiente para dar a volta ao mundo num beijo ou num colchão. Tempo suficiente para te viver intensa, verdadeira e maravilhosamente. Eu pensava que tinha o resto da vida para viajar pelo mar num abraço, para tirar fotografias no fundo do mar com palavras, para te matar de amor. Para te matar de mim.
Eu pensava que tinha tempo, pensava mesmo. Não tinha. Já devem ter percebido. Mas, se eu pudesse voltar atrás, fazia tudo contigo num único dia, mesmo sabendo que amanhã não estarias cá para me dizer que querias repetir, ou que querias que te relembrasse da cor das algas naquela manhã de mergulho ou da maneira como adormeceste na noite anterior. Fazia na mesma, só para poder ter a oportunidade de sentir, uma única vez na minha vida, o gosto dos teus lábios ou o toque das tuas mãos. Não aceito a ideia de meter um sentimento desses, tão bonito e bom de sentir, numa prateleira do meu armário ou arrumar numa gaveta do meu quarto. Não aceito a ideia de ter perdido a possibilidade de te viver e de me dar-te a viver. Eu pensava que tinha tempo suficiente para esse amor que nem se devia chamar de amor, mas desculpa, não há nada mais próximo disso. Só o posso chamar de amor, por enquanto.
Se eu pudesse voltar atrás dizia-te, de imediato, que não houve ninguém aqui, na minha bagunça de vida, uma pessoa como tu. Uma pessoa que eu desejasse a todos os segundos, que há um tempo atrás eu nem dava por eles passarem. Despia-me em palavras, mostrava-te o meu coração nú, contava-te as minhas mais intimidantes histórias e relembrar-te-ia que foste o único que, até agora, me fez bombardear sangue tão depressa que pensava que não ia conseguir pronunciar direito a próxima palavra. Confessava-te que foi em ti que vi a possibilidade de concretizar todos os meus sonhos de vida. Que eras tu que eu queria ali, na minha próxima constipação. Que eras tu que eu queria ali, de mão dada comigo, nas dores de um possível parto. Que eras tu que eu queria ali, na alegria de um sim recíproco. Que eras tu que eu queria, em todo o tempo que eu pensava ter. E não tive. Mas até quando acreditarei que voltarei a ter esse tempo que eu pensava ter e que me foi – dolorosamente – roubado?

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