Ele era de vidro.

O que tem de ser tem mais força, sempre teve, pensava era que estava a nosso favor, a favor do amor, quero eu dizer. Até o mais lindo amor, o que era para ser antes de acontecer, o que estava destinado, acaba. E acabou. Era mesmo de vidro, nunca duvidei, mas pensei, erradamente, mais uma vez, - melhor dizendo, acreditei - que não o ias deixar cair. Mas deixaste. Caiu. Partiu. Morreu. Não há como fazer um “volta atrás” e reconstruir o que agora está em pedaços. Desde o inicio avisei que era frágil como o vidro, e o meu amor também, tu prometeste guardá-lo bem fechado no teu coração e não o deixar quebrar, não o deixar ir para não partir, assim foi, até não quereres mais o teu coração cheio e não te importares com o meu. Podias tê-lo entregue em mãos, evitaria pedaços no chão e cortes profundos, evitaria medos e receios, evitaria dor e mágoa, evitaria que se partisse. Eu cuidaria dele, como cuidei até chegares. Até te entregar. Até te amar. Cuidaria, talvez, melhor do que tu cuidaste. Não o deixaria cair. Sempre ouvi dizer que quando as coisas são nossas cuidamos melhor delas, mas pensei que ele fosse teu e que tu o sentisses como teu. Afinal não. Se assim fosse ele ainda estaria inteiro, tal igual ao dia que te entreguei. Se tu soubesses o tempo que levei para o poder reconstruir, moldá-lo, acreditar e amar. Se soubesses tinhas tido cuidado. Não comigo. Mas com ele. Ele era de vidro, eu confessei-te. Despi-me para ti e abri-te o meu livro. Deixei-te ler todas as páginas que já estavam escritas e permiti que me ajudasses a escrever as que ainda estavam em branco. Ainda restaram algumas. Escrevo eu agora. Sem coração. Ele era de vidro. E partiu-se. Perdi-o. Encontrei-me.

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